Encontro com Fátima e uma surda oralizada

Há muitos anos que eu sonhava em ir ao programa Encontro com Fátima Bernardes. Sempre fui fã da Fátima e sabia que o programa dela é super receptivo para falar sobre implante coclear. Já foram diversas ativações ao vivo e diversos quadros de usuários e pais de usuários dando depoimentos. Para nós, que usamos o IC, qualquer espaço na TV sobre o assunto, especialmente na Rede Globo, é sempre bem vindo.

Poucos dias antes da minha ida, recebi um email da produção me perguntando se eu tinha interesse/disponibilidade para conversar com a Fátima sobre o livro “E Não É Que Eu Ouvi?“. Respondi que sim (claro!) e eles me ligaram para uma boa conversa sobre a minha trajetória que me levou até o livro, esse projeto especialmente feito pensando nas crianças que estão em fase escolar, em fase de construção de identidade e que muitas vezes, sentem-se diferentes por utilizarem uma prótese auditiva.

Nos bastidores, com a passista mini-baiana da Mangueira

Enfim definida a data da minha participação, nem tive tempo de anunciar minha ida ao programa, porque a própria Fátima fez uma chamada na véspera, quase ao mesmo tempo que eu tive confirmação. E aí, começou um dos momentos mais legais da minha vida.

Já nos bastidores, uma produtora veio conversar comigo e confirmar algumas coisas que tínhamos conversado. E conversa vai, conversa vem, ela descobriu que eu torcia para a Mangueira (por influência dos meus pais, que são verde e rosa desde que eu me entendo por gente) e que eu também nunca tinha ouvido uma bateria de escola pessoalmente, depois de voltar a ouvir com o IC. Resultado: transformaram isso no clímax da minha participação.

Professor Pasquale explicando que a palavra “coclear” significa “espiral”

Qual não foi minha surpresa de descobrir que o Professor Pasquale estaria no mesmo programa. Veja bem, eu sou uma grande divulgadora do termo Surdos Oralizados, que vem do fato que falamos oralmente e nossa língua é a língua portuguesa. Logo, era um privilégio e uma honra compartilhar o mesmo espaço com ele! Que além de inteligente e especialíssimo, é uma pessoa muito querida e interessada. Eu perguntei se ele queria meu livro de presente e ele disse que sim. Porque eu queria muito que ele soubesse sobre a nossa existência. Ele deixou meio claro que não sabia que surdos poderiam falar oralmente.

Veja um trechinho do programa:

Fátima Bernardes entrevita Lak Lobato no Encontro

Este é só um pedacinho. Assista ao programa na íntegra no Globo Play (é necessário criar uma conta gratuita).

Para mim, a coisa mais linda que a Globo poderia fazer, para demonstrar empatia com as pessoas que perdem a audição – os ensurdecidos que eu represento – foi mostrar a Escola de Samba na televisão, sem som. Mesmo que por uma fração de segundos, sei que muita gente se emocionou nessa hora. Eu mesma senti um nó enorme na garganta de me lembrar como foi a sensação de vazio deixada pelo silêncio, logo que ensurdeci. Acho que esse foi o ponto forte da matéria! Nem tanto a minha história, quase nada da Lalá, mas criar uma esfera de empatia. Para alguém que já ouviu na vida, ter que imaginar a vida sem som tem um impacto muito forte!

Eu gostaria de ter tido tempo para falar um monte de coisas, mas tenho que confessar que fiquei imensamente feliz de ver o termo “Surdos Oralizados” na telinha. Fiquei feliz de poder falar do quanto seria bom se tivéssemos uma metodologia diferenciada adequada para a inclusão de alunos surdos oralizados e implantados nas escolas. E, por sorte, deu tempo de falar que ainda que nem todos tenham indicação para o implante coclear, um número significativo de pessoas poderia se beneficiar com o IC.

Ainda que eu gostaria de ter tido mais tempo para explicar que o “E Não É Que Eu Ouvi?” não é meramente um livro de crianças. Ele foi sim escrito para trazer identificação e representatividade para crianças surdas oralizadas e usuárias de implantes auditivos. Mas ele também explica sobre a audição, deficiência auditiva, intervenção precoce, reabilitação auditiva, implante coclear e até dá dicas que facilitam a inclusão de surdos oralizados. E queria muito ter explicado para que mais pessoas pudessem levar o livro para escolas, ajudando no processo de inclusão de alunos nessas condições.

Lalá invadiu todos os telões

Em todo caso, não posso reclamar. Foi bom demais ter tido oportunidade de representar tantas pessoas e tantas famílias, numa emissora como Rede Globo, que atinge tantos brasileiros e falar sobre a diversidade da deficiência auditiva!

Então, falando sobre as reações, do meu público em geral, a maioria foi bem favorável e se sentiu bem representada.

Embora eu ache que meu sapato competiu comigo em atenção, porque também vi um monte de gente falando dele. Claro que também recebi algumas críticas de que eu deveria ter levantado a questão das dificuldades de manutenção do implante, mas se as pessoas tiverem um mínimo de sensibilidade para notar, eu não tive espaço nem para apresentar o livro, que era o ponto principal que eu tinha levado. Televisão é isso, a gente fala do que é possível e não do que simplesmente tem vontade!

Em resumo, o saldo foi bastante positivo, recebi um monte de emails e várias pessoas entraram em contato para falar sobre surdez e o IC. Embora no Twitter, tenha percebido que o público em geral estava mais interessado na Fátima vestida de Mulher Gato hihihi

 

Se eu pudesse mandar um email de agradecimento à produção, diria que foi um privilégio ter levado uma mensagem tão importante ao programa: mostrar que surdos implantados são capazes de se integrar tão bem ao elenco do programa, que viram apenas parte da atração, com direito a arriscar até uns passinhos de samba!

Uma última foto antes de apagarem as luzes do estúdio

Beijinhos sonoros

Lak Lobato

 

2 palpites

  1. Diogo disse:

    Belo texto. Parabéns!

  2. ana maria veronese disse:

    Parabéns, mais uma vez! Voce esteve linda!

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