Por que é necessário desfazer a ideia de que a surdez se resume à barreira de linguagem?
A surdez, também conhecida como deficiência auditiva, é uma deficiência sensorial muito comum e pouco compreendida.
A audição é o principal sentido usado na comunicação interpessoal, que nos permite interagir com nossos semelhantes através da voz, da fala oral e da compreensão auditiva.
Mas muita coisa referente à comunicação, ao uso da audição e das barreiras trazidas pela deficiência auditiva ainda fogem à compreensão do senso comum.
Começando pelo básico: nossa audição é um sentido menos imediato do que se imagina. Há todo um processo de aprendizado auditivo que se inicia ainda no ventre materno. Por volta da 21ª semana, quando o feto já é capaz de ouvir sons de baixa frequência, o aprendizado auditivo começa aí. Passamos os primeiros meses de vida ouvindo, aprendendo a reconhecer sons e saber responder a eles, posteriormente, aprendemos a reproduzir os sons.
É um longo aprendizado durante os primeiros anos de vida, que sem um conhecimento atento sobre esse tempo de aprendizado, estímulo e resposta, faz com que muita gente ache que a audição é um sentido imediato que liga e desliga do nada. Não é incomum acharem que uma pessoa que passa a ouvir através de uma tecnologia auditiva simplesmente saia ouvindo e entendendo perfeitamente, mesmo que nunca tinha ouvido antes.
Entretanto, nossa audição vai além da comunicação. Os sons nos conectam ao mundo ao nosso redor e nos permite “controlar” o ambiente. Um ouvinte típico comumente se sente assustado e ansioso em ambientes excessivamente silenciosos, onde não consegue mapear se existem outras pessoas ao redor. Nosso sentido auditivo é usado também como sentido de alerta e ele não se desativa nem mesmo durante o sono.
Através da audição nos comunicamos, mas também escutamos os sons da natureza e do cotidiano, reconhecemos os alertas de longe, somos capazes de perceber aproximação e afastamento de fenômenos da natureza, como chuva e vento. São muitas as funções do nosso sentido auditivo, pois vivemos em um mundo extremamente sonoro.
Trago essa explicação sobre como as múltiplas funções da audição para que as pessoas entendam que a barreira que a surdez traz não se limita especificamente a comunicação e é por isso que o aprendizado da Língua de Sinais não pode ser visto como o resumo de todas as necessidades de acessibilidade e inclusão para pessoas com deficiência auditiva.
Especialmente para alguém que ouviu parte da vida, perder a audição costuma gerar outros sentimentos além da dificuldade de comunicação, essas pessoas podem desenvolver ansiedade social, pelo simples fato de terem dificuldade de compreender claramente o que as pessoas dizem ao seu redor. Além do sentimento de pânico constante por não conseguirem mapear o ambiente, algo que faziam através da audição.
Para alguns casos, a solução se dá através do uso de tecnologias. Mas, para outros, atitudes inclusivas e respeitosas, que compreendem que a surdez não é uma mera questão de usar aparelho/implante auditivo e sair ouvindo perfeitamente – requer adaptação e aprendizado e nem sempre funciona de maneira idêntica à audição natural – é também necessário adaptar a comunicação para as possibilidades dela, compreender os anseios sociais e emocionais que a pessoa enfrenta e proporcionar acessibilidade conforme as demandas que essa pessoa trouxer.
Surdez vai além de mera barreira de comunicação, é uma deficiência sensorial e precisa ser vista e respeitada como tal.
Beijinhos sonoros
Lak Lobato










